Manual prático de uma sobrevivente

11/05/2017

Em tempos de intensa crise e bicudos de grana, resta ao brasileiro exercitar cada vez mais sua criatividade. Tenho acompanhado o sofrimento de muitos que perderam o emprego, e agora amargurados de tristeza buscam ideias sobre o que fazer para sobreviver. Como manter o plano de saúde? E o terrível dilema de tirar o filho da escola particular e passar para pública? Casais precisando escolher entre morar com os sogros ou devolver o apartamento financiado... as contas não fecham, então como vencer esse desafio? 

Vou contar uma história ...

 

Sempre estudei em escola pública. Fiz o ensino fundamental na Escola Olegário Mariano e João Neves da Fontoura. Eu sei, muitos anos se passaram... mas existe capacidade e muito boa vontade dos professores da rede, mas depende muito do "querer" do aluno e do apoio das famílias. Me formei em Edificações no CEFET-RJ em 79 e comecei a trabalhar em construção nesse mesmo ano, já sofrendo os efeitos do declínio do então chamado "Milagre Econômico", período de forte crescimento que aconteceu entre 1968-1973 quando o PIB cresceu 12%. O país realizou no período obras de porte como a ponte Rio-Niterói, a rodovia Transamazônica, Itaipu... quem lembra? Depois, adotamos uma sucessão de planos econômicos para tentar conter a inflação e retomar o crescimento praticamente estagnado durante a década de 80, também chamada de "a década perdida". Justo em 86 terminei a faculdade de engenharia civil. Nessa época era desanimador o mercado de trabalho, especialmente na construção civil. Já se falava do déficit habitacional, aliás esse déficit existe desde que me entendo por gente e persiste até hoje, é só olhar a densidade das favelas nas grandes cidades. Sim, porque o pessoal precisou ser criativo. Vieram para as cidades atrás de emprego com uma malinha na mão e uma muda de roupa. Não tinham dinheiro pra alugar uma casinha... vamos fazer um barraco, e outro e outro... Nunca houve um interesse genuíno das políticas públicas em resolver esse problema... manter o povo assim nessa fragilidade gera votos. E assim passamos por cruzeiro, cruzado, tablita... a inflação era tão alta que, de Previsão de Despesas Semestral, passamos a trimestral e finalmente mensal... semanal. Época do "overnight". A minha geração, a X, enfrentou muitas dificuldades, mas quem era da classe trabalhadora nessa época não tinha muitas escolhas, não dava pra pensar fora da caixa... e assim fui doutrinada! Estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar casa, constituir família. Verdadeiro comercial de margarina! E a gente queria sair da casa dos pais cedo pra ter a nossa casa... liberdade pra gente era isso. E então, como consegui sobreviver profissionalmente no Brasil, trabalhando com construção e ainda por cima sendo mulher?

 

 

Na verdade as coisas foram acontecendo e hoje percebo que me tornei generalista, por força da conjuntura. Precisei ser flexível e criativa. Estudei estruturas na faculdade pra ter uma base sólida em cálculo porque achava que construção se aprendia fazendo, e assim cai no canteiro de obras. Minha primeira aventura foi na Tijuca na rua Oliveira da Silva 48, em 1979. De lá para cá perdi a conta de quantas foram... até no Amazonas fui parar pra construir um biodigestor. Fomos construir um protótipo na comunidade de Igarapé Açú perto de Parintins, através do Projeto Rondon, e acabei conhecendo vários brasis... Voltei diferente, mais madura e realista e zero frescura. Fiz todos os cursos que o Senai CFP4-RJ oferecia na época na área de construção e que mulheres podiam frequentar, mais matemática financeira, MS Project, AutoCAD, perícias judiciais, leitura rápida, mestrado...

 

Atuei em construção, orçamento, planejamento, projetos, gerenciamento, perícias judiciais e preventivas, como pesquisadora do CNPQ... me tornei uma "quitandeira" da profissão hahaha, mas não desisti de atuar. Se antes me ative ao figurino pensando dentro da caixa, depois precisei explodir a caixa. Conheci profissionais de valor, e aprendi muito com todos. O que fazer e o que não fazer também. Em momento algum parei de me atualizar e por conta disso consegui construir uma carreira sólida e uma carteira de clientes fiéis . Mesmo assim fui convidada a me retirar das empresas nas duas vezes que engravidei. Em outro instante viajei para China, Dubai e Nova York a trabalho. Digo isso pra lembrar a todos que o mundo dá voltas, e precisamos desenvolver a capacidade de nos metamorfosear. Me reinventei muitas vezes pra driblar as inconstâncias econômicas do nosso país e não consigo deixar de acreditar que ele é viável, por mais indignada que fique, cada vez que leio a seção de política e economia. E se deu certo pra mim, pode dar pra qualquer pessoa. Cheguei ao cargo de Diretora de Construção de uma conceituada construtora, que nesse momento tenta sobreviver, agonizando que se encontra feito tantas outras, sem o oxigênio de novos lançamentos. Passados 38 anos e muitos caminhos... não me arrependo.

 

Recomendo aos jovens que sonhem, que sejam inconformados, que tenham ética e respeitem seus valores, que busquem ser felizes e principalmente ouçam o coração. O segredo é aproveitar o caminho e construir sua história. O Brasil precisará ser reconstruído depois da Lava-jato. Vamos ter muito trabalho pela frente. Fiquem firmes. 

 

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Edição: João Gonzaga de Oliveira

 

 

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