Não sou um rosto perdido na multidão


Estamos comemorando 100 anos da primeira, pequena e ao mesmo tempo enorme, vitória das mulheres, na luta por um direito que nos parece básico, o voto. E se hoje ainda não nos sentimos plenamente representadas, seja pela proporção de gênero ou pelas ideologias dominantes, imagine naquela época.

(Um parêntese aqui: somos mais de 50% do eleitorado, ocupamos pouco mais de 10% das cadeiras no senado e menos de 10% na câmara).


Quer saber um pouco como foi esse movimento? Assista “As Sufragistas” no Netflix.


Como assim o cérebro feminino foi feito pra pensar em vestido, casamento, bebê... ???

Devemos muito ao movimento das suffragettes daquela época e resgatamos esse apelido para definir as que lutam ainda hoje, contra as desigualdades que persistem.


Também foram as inglesas que começaram no século XIX a campanha para que as universidades aceitassem alunas. Bem, ainda estamos lutando em alguns cantões do mundo, em pleno século XXI, pelo direito à educação básica das meninas.


Tenham uma pequena amostra da dimensão do problema assistindo aos documentários Malala e Eve’s Apple. Eles são apenas degustação.


São processos dolorosos, com profundas raízes culturais que tornam as mudanças do status quo mais lentas e complexas. Não resolve apenas formular uma lei, precisa mudar um costume!


Todos nós sabemos o peso das tradições de gerações passadas sobre nós. Pode envolver romper com o pai e a mãe, que se ama e admira. O caminho das “evas“ nunca foi fácil.


São lutas por múltiplas causas que atravessam séculos. Homens e mulheres em busca constante de um convívio harmonioso, digno e justo, nem sempre empunhando bandeiras opostas. É preciso mergulhar no passado pra entender o presente e pensar o futuro.


Somos todos sobreviventes da nossa história individual e coletiva.


Eu por exemplo: sofri bullying na infância, assédio sexual na adolescência. Mais tarde, já no mercado de trabalho, uma acentuada e inexplicada diferença salarial durante anos. Mas sobrevivi... Me tornei mais forte apesar ou por causa de, não sei. Não estou minimizando as dores e seus efeitos. Muito pelo contrário. Trata-se mais do que fazemos com o que nos acontece...


Recusei a autopiedade, a me sentir vítima dessas situações que não consegui evitar. Essa foi a minha postura, não estou dizendo que é a certa ou melhor, nem citei pra angariar simpatia ou solidariedade, apenas registrar que possuo alguma autoridade para tratar deste assunto.


Cada um de nós precisa escolher o próprio caminho. E sim, nós temos escolhas, mesmo que às vezes pareça que não.


Penso que ser privada de ir à escola talvez tivesse prejudicado mais seriamente a minha psiquê. Nunca vou saber.


Afinal, estamos sempre lutando por alguma coisa em algum lugar do planeta. Acredito que isso tudo faz parte da nossa humana evolução. Já aprisionamos, escravizamos e matamos negros, brancos, mulheres, judeus, ciganos, crianças, índios... enfim, com que propósitos?


Nós mulheres não possuímos prioridade nem exclusividade na injustiça “dos homens”. Fazemos parte. Não cabe mágoa ou revolta, mas a insistência de quem não esquece, não cede, não desiste.


Vem aí o mês de março, o mês da Mulher. Temos muitos motivos para celebrar. Convido todos a uma reflexão sobre o que ainda precisamos fazer, como podemos ajudar e melhorar a vida do semelhante à nossa volta, em especial das mulheres, aquelas que podemos alcançar.


Somos filhas, esposas, mães, tias, irmãs, madrinhas, avós, primas, amigas, professoras... somos muitas versões, todas com enorme potencial, e não devemos nos furtar da responsabilidade de educar e conscientizar, preparar nossos filhos e filhas pra construção de um mundo de igualdade e oportunidades para todos.


Essa construção esse preparo é diário, nos pequenos e grandes gestos. Na coerência das atitudes. Na referência dos exemplos.



Eu sou Damasia, filha de Mário e Zaira, irmã da Rosa, Ana e Luiz, esposa do João, mãe do Rodrigo e da Carolina, tia da Mônica, Nilvan, Marcelo, Amanda, Junior, Luciana, Olavo, Graziele, Gisele, Guinha, Andrea e Aline, amiga da Nair, Henrique, Gabi, Fabricio, Leila, Paula, Lecticia, Roberta, Rose, Eduardo, José, Celia, Marco ... essa lista de pessoas que a gente pode alcançar quase não tem fim. Percebeu o alcance que cada um de nós tem? E você, quem é você? O que está fazendo pra melhorar o mundo?


O artigo já terminou, mas se quiser entender o que foi e o que é a situação da mulher, segue mais 7 sugestões de filmes elucidativos:


1- Histórias Cruzadas


A luta de Eugenia Skeeter, uma garota branca que quer ser jornalista e decide escrever e dar voz as mulheres negras em meio ao racismo da década de 60 nos EUA. A história do livro se passa no Mississipi e é contada sob a ótica das empregadas negras acostumadas a cuidar dos filhos da elite branca, a qual Eugenia faz parte.


2- Terra Fria


Baseado em fatos reais, o filme conta a história de uma mulher que abandona o marido que a espancava para procurar emprego e sustentar os dois filhos. Mostra também a primeira ação coletiva por assédio sexual nos EUA.


3- Revolução em Dagenham


A busca por melhores condições salariais em um mundo de homens é a temática do filme. As operárias de uma fábrica da Ford de Dagenham vivem uma rotina desgastante de trabalho em condições precárias e longas jornadas. O movimento dessas mulheres foi fundamental para que o parlamento britânico consolidasse o projeto da paridade salarial em 1970.


4- O Silêncio das Inocentes


Este documentário mostra a vida e história de mulheres vítimas de violência doméstica. Relata também o caso da farmacêutica Maria da Penha cujo nome batiza a lei que pune os agressores.


5- Flor do Deserto


Waris fugiu de sua aldeia no interior aos 13 anos, para escapar de um casamento arranjado. Vai trabalhar na embaixada da Somália em Londres, e quando adulta vira modelo. Mas vive as angústias de quem tem a vida marcada pela mutilação genital na infância.


6- A Informante


Baseado em fatos reais esse filme se passa na Bósnia e mostra como funciona o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual.


7- O Sorriso da Mona Lisa


O filme mostra a história de uma professora de arte que amplia as possibilidades e referências de um grupo de jovens brilhantes que estudavam em uma universidade nos anos 50, e que mesmo com os estudos tinham por horizonte o destino de se tornarem boas e cultas esposas.

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